domingo, 26 de novembro de 2017

"Meu quintal é maior do que o mundo

Scooby me acordou cedo, como sempre. Aproveitei para fiscalizar cada broto novo no quintal. Dois ou três dias de chuva e o verde já ficou diferente. O pé de maracujá da vizinha avançou pelo muro e já está em flor. A chuva foi pouca, mas a pitangueira, teimosa, floriu. O pé de abacate está carregado, mas sua sombra atrapalha a amoreira, que mesmo assim, fornece uns poucos frutos, disputadíssimos por quem frequenta esse quintal. Minhas perpétuas seguem "sempre-vivas", resistentes ao sol desse início de sertão. O pezinho de alecrim que Seo Miguel plantou pra mim, nem murchou. O piso em volta dessa casa velha, cedeu ao charme da "mulata na sala", uma das flores preferidas de mamãe. Gosto de pensar que as sementes que germinaram são ainda da época em que ela mesma cuidava do seu jardim. Os beija-flores pararam de brigar pelo bebedouro e agora até permitem que os pardais tomem da água. Também, com esse calorão, penso que os bichos ficam mais solidários. Tem gente que só vê aqui, uma casa velha carecendo de reforma e pintura, mas eu acho que há tanto pra ver.
"Meu quintal é maior que o mundo"... 

Amizade dada é amor

Riobaldo amava o amigo Diadorim. Só pensava era nele, sentimento dele voava reto. Diadorim, era sua neblina. Andavam sempre juntos, davam passeios, divergiam do resto do bando, cada um feito por si. Ninguém maldava nem caçoava, por risco de morte. Com Diadorim, Riobaldo aprendeu a pôr reparo no miúdo, a pôr sentido nas pequenas grandezas. As araras no ar parecendo pano azul e vermelho desenrolados, esfiapados no lombo do vento quente. Aprendeu a formosura dos gerais. “Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor.” Riobaldo tinha ciúmes de Diadorim. Tinha ciúmes da confiança que Medeiro Vaz depositava no amigo, e da gratidão e admiração que Diadorim nutria por Joca Ramiro. Sem Diadorim por perto para reprovar, Riobaldo cedeu aos encantos de mulher moça, bonita. Trocaram carinhos feito casamento, esponsal. A moça serviu café coado por ela, refresco, limonada de pêra-do-campo e até presente deu. Uma presa de jacaré para o jagunço transpassar no chapéu contra mordida de cobra. Riobaldo até conheceu mãe da moça, uma adivinhadora de passado e futuro. Diadorim adivinhou o chamego e também se enciumou. “Essa velha Ana Dazuza é que inferna e não se serve...” A dona, segundo ele, não forneceu informações confiáveis ao chefe do bando. “Essa carece de morrer, para não ser leleira...” “Já sei que você esteve com a moça filha dela...” Confessou. Riobaldo entendeu o amor, mas também o ciúme do amigo e zangou-se: “Aí é a intimação? Pois, fizerem, eu saio do meio de vós, pra todo o nunca. Mais tu há de não me ver!...” Diadorim pôs mão em braço de Riobaldo que estremeceu num alvoroço de doçura, mas repeliu, como se pedra pontuda estivesse entre as duas palmas. “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira, e a má-vida da filha dela, aqui neste comfim de gerais?!” Irado, Riobaldo respondeu: “Dou!” E destilou seu cíume reclamando se todos tinham que honrar Joca Ramiro como se Cristo Nosso Senhor fosse. “Riobaldo, escuta, pois então: Joca Ramiro era o meu pai...” Diadorim tentou explicar a consideração. Riobaldo acalmou o fôlego, enquanto observava os braços bem feitos do amigo, a cara levantada, tão bonito, tão sério. O ouvido retorcia a voz dele, e no fim de tanta exaltação, seu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e ele ambicionava de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. Diadorim também se acalmou. “Tem discórdia não, Riobaldo amigo, se acalme, Não é preciso se haver cautela de morte com essa Ana Dazuza.” “Mas, se você algum dia deixar de vir junto, como juro o seguinte: hei de ter a tristeza mortal...” Falou Diadorim, colocando a mão por sobre a do amigo e a retirando em seguida. Riobaldo abraçou Diadorim em pensamento, como as asas de todos os pássaros e pelo nome de Joca Ramiro, e por seu amigo, agora ele matava e morria.

Das belezas sem dono

Riobaldo não gostava de ser jagunço, achava que não tinha nascido pr'aquilo. Não tinha braçagem pra matar, tinha pena de atirar. Diadorim ensinou Riobaldo a apreciar as belezas sem dono: o céu de estrelas em fevereiro, o cheiro forte das flores em abril, as cigarras em bando, o azul vivoso do céu no outono, o vento que não deixa juntar orvalho, o capim macio. Diadorim ensinou Riobaldo a gostar do silêncio, a obedecer quieto. O amigo era uma espécie de conforto na aridez do sertão. Diadorim deixou de ser nome e virou sentimento.

O encontro parte I

O encontro - parte I
Riobaldo menino, sarado de uma doença, teve que cumprir promessa feita pela mãe quando ficasse bom: tirar esmola suficiente para, metade celebrar uma missa, metade pôr dentro de uma cabaça, bem tampada e jogar no Rio São Francisco, para esbarrar no Santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa, e quem sabe, um mais necessitado encontrar. Todos os dias, lá ia o menino para a beira do rio, com sua capanguinha, esmolar. Ninguém quase que não passava, dinheiro quase que nunca tinha, mas ele gostava de apreciar o movimento. Lá, pelo terceiro dia, nem não é que viu um outro menino pitando cigarro, encostado numa árvore? Regulado na idade com Riobaldo, usava chapéu-de-couro, menino bonito, com grandes olhos verdes. Puxou prosa com Riobaldo, que mesmo em fé de promessa, ficou envergonhado de estar esmolando e foi logo enrolando sua capanguinha. Ali mesmo, nascia em Riobaldo um prazer pela companhia daquele menino, que ele nunca por ninguém tinha sentido. Uma conversinha adulta e antiga e um desejo de que ele nunca mais fosse embora, e ficasse para sempre naquela parolagem miúda, só seu companheiro amigo desconhecido. O menino comprou um quarto de queijo, um naco de rapadura e convidou Riobaldo para um passeio de canoa, dessas escavadas em pau de árvore. O menino lhe deu a mão para ajudar a descer o barranco, uma mão bonita, macia, quente que deixou Riobaldo vergonhoso e perturbado. Sentaram um de frente para o outro na canoa que se equilibrava mal, balançando no estado do rio. Receoso com o vacilo da canoa, os esmerados olhos verdes luziam um efeito de calma sobre Riobaldo que não sabia nadar. O remador era menino como eles, e embora inseguro, Riobaldo fez questão de demonstrar brio. O rio era o de-Janeiro, de águas claras e o menino chamava a atenção de Riobaldo para as muitas flores subitamente vermelhas e roxas, pois era mês de maio. Periquitos passavam em bando por cima deles, um Nhambú cantou e Riobaldo para sempre jamais deslembraria aquele momento. O menino não se parecia com pessoa nenhuma, um jeito suave e forte, suas roupas sem nódoa e nenhum amarrotamento. Possuía um cheiro bom sem cheiro nenhum, demonstrava segurança de si e embora falasse pouco, como se apreciasse o ar do tempo, com seu jeito sabido parecia também gostar de Riobaldo. A canoinha foi saindo do rio de-Janeiro e entrando no Velho Chico. Riobaldo ansiado pediu pra voltar. O menino nem lhe olhou, porque já estava lhe olhando. "Para que?" perguntou e sorriu. E deu ordem ao canoeiro, com uma só palavra, firme e sem vexame: "Atravessa!" Riobaldo teve medo, medo e vergonha. Apertou os dedos no pau da canoa, fechou os olhos e lembrou que se a canoa virasse, ficaria boiando e era só se apoiar nela, disse. O canoeiro contradisse. "Esta é das que afundam inteiras. É canoa de peroba. Canoa de peroba e pau-d'óleo não sobrenadam". Riobaldo sentiu tontura. Tantas canoas boas no porto, boiantes e tinham escolhido logo aquela de madeira burra. Seu desespero deve ter ficado evidente porque o menino quieto, composto, de frente e olhando para Riobaldo disse: "Carece de ter coragem..." Sentindo já as lágrimas marejarem os olhos, Riobaldo respondeu: "Eu não sei nadar..." O menino sorriu bonito e sereno afiançou: "Eu também não sei."

O encontro parte II

Que é que a gente sente, quando se tem medo?" O menino perguntou. "Você nunca teve medo?" foi o que veio à cabeça de Riobaldo. "Meu pai disse que não se deve de ter", o menino respondeu. A tremura de Riobaldo enchia o menino ainda mais de coragem. E ele pôs a mão sobre a de Riobaldo, um mão de dedos delicados e ficaram assim, um fazendo parte da pele do outro. O menino mandou o canoeiro encostar, ordenou que tomasse conta e seguiu com Riobaldo no meio do capim. Conversando pouco, dividiram queijo e rapadura. Riobaldo acanhado, com vergonha de suas roupas, comparando-as com o menino. Um outro rapaz surgiu de repente, por ali, viu os dois, e maldando disse: "Vocês dois, uê, hem?! Que é que estão fazendo?..."Hem, hem, E eu? Também quero!" Insistiu. Riobaldo amedrontado, falava alto contestando que não estavam fazendo sujice, que estavam era espreitando as distâncias do rio e o parado das coisas. E o menino, sem demonstrar espanto, com seu sorriso, permaneceu sentado e imitando voz de mulher, disse ao rapaz: "Você, meu nego? Está certo, chega aqui..." E o rapaz, satisfeito, sentou juntinho. Imediatamente, pulou pra trás, deu um grito e varou o mato em fuga. Sem aluir do lugar, o menino limpava a lâmina de sua faquinha no capim, com todo capricho e a guardou na bainha dizendo: "Quicé que corta..." Riobaldo se apavarou ainda mais, com medo do rapaz buscar companheiros, foice, garrucha e voltar. Quis sair logo dali, ir embora. "Carece de ter coragem. Carece de ter muita coragem", o menino respondeu, gentil. E vagarozinho, sem olhar pra trás, sem medo, andou até a canoa. "Você é valente, sempre?" Riobaldo perguntou. "Sou diferente de todo mundo", o menino respondeu. E Riobaldo não tinha medo mais.
"Muita coisa importante falta nome".

Inveja

Quase tive um troço, lendo, agora, no "Grande Sertão: Veredas", o reencontro de Riobaldo com o menino. Agora rapaz, o Reinaldo. Lendo o cuidado e o carinho com que os jagunços tratavam os animais - cavalo, burros e mulas - lembrei de um prosa que tive com meu irmão, há alguns anos, logo que voltei para Baldim. Ele falava da época que nosso pai foi meeiro de grande fazendeiro. A pobreza em casa era muita. Cinco filhos. E meu irmão me contou:
"Sabe do que eu tinha inveja? Eu tinha inveja, inveja mesmo, era do filho do fazendeiro, que tinha um cavalinho todo arreado, com a selinha, ele todo paramentado, com chapéu e uma bota que ia até o joelho. Ele sempre passava com os peões da fazenda, todo empinado, tocando umas cem cabeças de gado. Cada qual num cavalo mais bonito que o outro. E nós... E nosso único cavalo... Mirradinho... O Bainho..."
Por isso Guimarães Rosa provoca tanto arcoçôo em mim. Seus personagens parecem saídos de dentro da minha casa. 

Grande Sertão: Veredas

As mais de trinta páginas narrando o julgamento de Zé Bebelo, ocorrido no sertão dos gerais, me prendeu ao livro. Prometi que o largaria assim que acontecesse o desfecho. Que nada! Em seguida, veio um período de calmaria para os jagunços, mas de dúvidas e angústias para Riobaldo, que se convenceu que o que sentia por Diadorim era "amor mesmo, mal encoberto em amizade". Seguiram páginas e páginas de um Riobaldo, desta vez, não em guerra com outro bando, mas com seus sentimentos. Ainda fruindo as dezenas de páginas onde o jagunço admite para si o que sente pelo amigo, e chegou a notícia da morte de Joca Ramiro. 
Fechei o livro. Fui buscar um ar. 
Benz'ó'deus!